Jacó era enganador?
A falsa ideia de que Jacó era um “enganador”: entendendo a narrativa e os fatos corretos
Por: Fernando Lemos de Souza
É muito comum, ao ler a história de Jacó e Esaú, formar a ideia de que Jacó era um homem enganador, que usou de artifícios e mentiras para tomar do irmão o que seria seu por direito natural. Essa interpretação, porém, é limitada e incorreta, pois desconsidera o gênero literário do livro de Gênesis, a decisão soberana de Deus, a atitude de Esaú e o contexto exato de cada acontecimento. Uma análise cuidadosa, apoiada na Bíblia e em estudos teológicos, mostra que Jacó não corresponde a essa imagem, e que os fatos se desenrolaram conforme o propósito divino, não por astúcia humana.
Primeiro ponto fundamental: o livro de Gênesis tem caráter narrativo, como explica José Gonçalves de Lima. Moisés, ao escrever, teve como objetivo principal registrar a história da aliança de Deus e a trajetória do Seu povo, relatando os acontecimentos tal como ocorreram, com acertos e erros, sem a intenção de formular doutrinas ou emitir julgamentos definitivos sobre o caráter moral das pessoas envolvidas. Antônio Gilberto ensina que não se pode criar ensinos ou definir toda a personalidade de Jacó com base em episódios isolados de uma narrativa histórica, pois isso desvia do propósito original do texto, que é contar o que aconteceu, não servir de modelo absoluto de conduta.
Antes mesmo de os gêmeos nascerem, Deus já havia declarado a Sua decisão de forma irrevogável. Quando Rebeca perguntou ao Senhor sobre o conflito que sentia em seu ventre, a resposta foi: “Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas; um povo será mais forte que o outro povo, e o mais velho servirá ao mais novo” (Gn 25:23). Para Luiz Sayão, essa palavra não foi apenas uma previsão, mas uma escolha soberana: desde o princípio, Deus determinou que a primogenitura, a aliança e a bênção pertenceriam a Jacó, e não a Esaú. Isso significa que Jacó não tomou o que era do irmão, nem tentou ajudar Deus a cumprir a Sua promessa; ele apenas recebeu o que já estava reservado por ordem divina, muito antes de qualquer ação humana. O plano de Deus já estava definido, e os acontecimentos apenas confirmaram o que Ele já havia estabelecido.
Outro ponto decisivo é o valor que cada um deles atribuiu à primogenitura. Eles tinham cerca de 15 anos de idade — conforme cálculo cronológico, pois Abraão morreu quando Isaque tinha 75 anos, e ele teve os filhos aos 60 — quando Esaú, voltando da caça, faminto e cansado, aceitou vender todo o seu direito de primogênito por um prato de lentilhas (Gn 25:29-34). A primogenitura não significava apenas vantagens materiais: era o direito de ser o portador da aliança, manter a fé e pertencer à linhagem de onde viria o Salvador. Esaú, ainda jovem e imaturo, não compreendeu ou não deu importância a isso, e declarou: “Eis que eu vou morrendo; para que me serve a primogenitura?”. Hernandes Dias Lopes ensina que quem despreza a primogenitura também despreza a bênção que dela faz parte, pois ambas estão ligadas; ao renunciar voluntariamente, Esaú perdeu todo e qualquer direito sobre o legado espiritual, e não poderia reclamar depois o que ele mesmo havia descartado.
Com o passar do tempo, quando já tinham cerca de 40 anos, Esaú, mais velho e refletindo sobre sua escolha anterior, tentou reverter a situação. Ele percebeu o erro que cometeu e quis receber uma bênção que já não lhe pertencia mais. O detalhe grave é que ele nunca contou ao pai Isaque que havia vendido a primogenitura anos antes; ele escondeu esse fato, e quando Isaque, já idoso e com a visão muito fraca, pediu que ele fosse caçar para receber a bênção, Esaú foi prontamente, disposto a tomar para si algo que já não era seu por direito e que ele mesmo havia renunciado. Rebeca, porém, ouviu toda a conversa e, sabendo da palavra de Deus e da renúncia de Esaú, orientou Jacó a agir.
É fundamental observar como Jacó participou desse episódio: ele não teve iniciativa própria. Ele chegou a tentar dissuadir a mãe, alegando que poderia ser amaldiçoado se fosse descoberto, mas Rebeca assumiu toda a responsabilidade e determinou que ele obedecesse à sua voz (Gn 27:11-13). Claudionor de Andrade explica que Jacó fez o que fez por obediência à mãe, não por desejo de enganar; ele não estava tirando o que era de Esaú, mas sim formalizando o que já era seu, pois a primogenitura já havia sido transferida legal e voluntariamente muitos anos antes. O que ocorreu ali não foi uma fraude, mas a confirmação de uma realidade já existente: Esaú já não tinha direito à bênção da aliança.
Por fim, a ideia de que Jacó era apenas um enganador desconsidera todo o restante de sua história e o reconhecimento que ele recebe na própria Bíblia. Ele está na lista dos homens de fé em Hebreus 11, ao lado de Abraão e Isaque, lembrado não por falhas, mas por valorizar as coisas de Deus e por ser escolhido para dar continuidade ao plano da salvação. Deus não escolhe pessoas por serem perfeitas, mas por aquilo que elas prezam e por como respondem ao Seu chamado. Jacó tinha limitações, mas dava valor ao que vinha de Deus; Esaú, por outro lado, sempre preferiu o que era passageiro e visível. A narrativa de Gênesis não ensina que enganar é correto, mas mostra que o propósito de Deus se cumpre, e que quem despreza as coisas espirituais acaba perdendo o que tem de mais valioso.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Claudionor de. Comentário Bíblico: Gênesis. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
BÍBLIA. Gênesis 25:23, 29-34; 27:11-13; Hebreus 11. Almeida Revista e Atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
GILBERTO, Antônio. Gênesis: História e Teologia. São Paulo: Graça Editorial, 2012.
LIMA, José Gonçalves de. Introdução ao Pentateuco. 3. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
LOPES, Hernandes Dias. De Gênesis a Apocalipse: Panorama Bíblico. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.
SAYÃO, Luiz. Os Patriarcas: A Fé que Moveu a História. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
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